Segunda-feira, Fevereiro 23, 2009

Avisando...

estou fazendo esse blog migrar (ele e todos os posts dele) pro www.derhimmeluber.wordpress.com
Ainda estou tateando nas configurações, com alguma ajuda, ele acompanhará o momento transitório.

Domingo, Fevereiro 22, 2009

Ofélia




"Efetivamente, o apelo dos elementos materiais é tão forte que pode servir-nos para determinar tipos de suicidas bem distintos. Parece que então a matéria ajuda a determinar o destino humano. Marie Bonaparte mostrou muito bem a dupla fatalidade do trágico ou, melhor dizendo, os vínculos estreitos que unem o trágico e o trágico literário: "Realmente o gênero da morte escolhido pelos homens, quer seja na realidade para eles mesmos pelo suicida, ou na ficção para seu herói, nunca é ditado pelo acaso, mas em cada caso, é determinado de modo estritamente psíquico." (op. cit., p. 584) . Surge aqui um paradoxo sobre o qual gostaríamos de nos explicar.
Sob certos aspectos, pode-se dizer que a determinação psicológica é mais forte na ficção do que na realidade, pois na realidade podem faltar os meios da fantasia. Na ficção, fim e meios estão à disposição do romancista. Eis porque os crimes e os suicídios são mais numerosos nos romances que na vida. O drama e sobretudo a execução do drama, o que se poderia chamar de discursividade literária do drama, marca, pois, profundamente o romancista. Quer queira quer não, o romancista revela o fundo de seu ser, ainda que se cubra literalmente de personagens. Em vão ele se servirá "de uma realidade" como de uma tela. É ele que projeta essa realidade, é ele sobretudo que a encadeia. No real, não se pode dizer tudo, a vida salta aos elos da corrente e oculta sua continuidade. No romance só existe o que se diz, o romance mostra a sua continuidade , exibe sua determinação. O romance só é vigoroso se a imaginação do autor for fortemente determinada, se ela encontrar fortes determinações na imaginação humana. Como as determinações se aceleram se multiplicam no drama, é pelo elemento dramático que o autor se revela mais profundamente.
O problema do suicídio na literatura é um problema decisivo para julgar os valores dramáticos. Apesar de todos os artifícios literários, o crime não expõe bem o seu íntimo. Com demasia evidência, ele depende das circunstâncias exteriores. Irrompe com um acontecimento que nem sempre se prende ao caráter do assassino. O suicídio, na literatura, prepara-se ao contrário como um longo destino íntimo. É literalmente, a morte mais preparada, mais planejada, mais total. O romancista quase que gostaria que o universo inteiro participasse do suicídio de seu herói. O suicídio literário é, pois, muito capaz de nos dar a imaginação da morte. Ele põe em ordem as imagens da morte.
No reino da imaginação, as quatro pátrias da morte tem seus fiéis, seus aspirantes. Ocupemo-nos tão somente do trágico pelas águas.
A água que é a pátria das ninfas vivas é também a pátria das ninfas mortas. É a verdadeira matéria da morte bem feminina. Desde a primeira cena entre Hamlet e Ofélia, Hamlet - seguindo nisso a regra da preparação literária para o suicídio - ,como se fosse um adivinho que pressagia o destino, sai de seu profundo devaneio murmurando: " Eis a bela Ofélia ! Ninfa, em tuas orações, lembra-te de todos os teus pecados." ( Hamlet. ato III , c. I)
Assim, Ofélia deve morrer pelos pecados de outrem, deve morrer no rio, suavemente, sem alarde.Sua curta vida já é a vida de uma morta. Essa pobre vida sem alegria será outra coisa senão uma vã espera, o pobre eco do monólogo de Hamlet?"*

Quando eu era mais nova, sabia de cor todas as falas de Ofélia. Adolescente, muito antes de ler Shakespeare na faculdade, muito antes de Prática de Interpretação I. Era somente uma identificação às cegas, antes de eu entrar num mundo de interrogações, eu costumava obedecer.

* BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos. tradução de Antonio de Pádua Danesi, 2a. edição. São Paulo, 1989.
** Quadro de John Everett de Millais

Quinta-feira, Fevereiro 19, 2009

Last kiss

Comprei caixas. Além das mudanças que me propûs a fazer no meu quarto e em mim, final de período. Hora de encaixotar em seus devidos lugares o que já passou e colocar num espaço acessível para (e se) quando eu precisar, um dia. Tudo devidamente dividido. Literaturas e culturas brasileira e portuguesa e prática de interpretação numa caixa. Línguas portuguesa, lingüísticas, latim e práticas de produção em outra; teorias da literatura (incluindo teoria da literatura e filosofia), filosofia da linguagem e literatura clássica em uma terceira caixa e finalmente, outra só para as matérias de licenciatura. Alemão, filologia germânica e literaturas alemãs ficam separados.
Tenho coisas para jogar fora, para dispensar. Tenho pouco tempo a perder, mas penso de pouquinho em pouquinho. Só ir comer algo e tomar uma cerveja, mais um pouquinho de tempo. Voltar a andar pelos mesmos caminhos sinuosos de outrora. Não ouvir às minhas lágrimas e aos meus amigos e insistir numa última vez.
Minha irmã costuma dizer que minha vida é praticamente feita de últimas vezes. É como se fosse a imagem mais forte que tenho da vida: a última vez. E eu prolongo e faço de quase todas as vezes (inclusive da primeira) uma última. Algo que sempre deixará em mim, uma saudade eterna, como se fora a última vez que eu visse a pessoa amada partir mar adentro rumo à morte d´água.
Uma vez que a última vez, se torna, de fato última e definitiva, o definitivo assume todo o seu significado. Não há volta possível. É como se um adeus fizesse uma lavagem cerebral em mim e eu perdesse minha memória. Não há nada que se compare com uma última vez.
Então eu prolongo e me agarro a elas o quanto posso, porque sei que um dia, acaba e morre.

Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009

última literatura

Ontem eu fiz a minha última prova de Literatura Brasileira. Terminei a Literatura IV, portanto, nada de Literatura Brasileira ou portuguesa pra mim. Agora, só alemã e a comparada, que eu pretendo puxar porque afinal de contas, meus planos de mestrado são em Literatura Comparada.
O título da minha prova foi: O deslocamento pela loucura e contemplação; comparando dois contos de Guimarães Rosa e um de Clarice Lispector.
É claro que, em uma hora e meia, não dá para fazer muita coisa, mas saí de lá com a sensação de dever cumprido. Pegando com mais calma, essa prova daria um desdobramento muito bom.
Agora é esperar até março para saber o que a professora achou.

Terça-feira, Fevereiro 17, 2009

Equilíbrio

Parafraseando-a: pelo também meu, amor recente.

Assim como felicidade como estado constante também não existe. A não ser felicidade de micareta; que não me cabe.

Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009

Estrelas - ilhas

"Away, then, my dearest,
Oh! hie thee away
To the springs that lie clearest
Beneath the moon-ray-
To lone lake that smiles,
In its dream of deep rest,
At the many star-isles
That enjewel its breast-
Where wild flowers, creeping,"
Al Araaf - Edgar Allan Poe

Há pessoas com as quais não ficaria. Simplesmente pelo motivo que ficar é vulgar demais.Ficar é qualquer um, pode ser qualquer pessoa que te sorria sob uma luz estreboscópica, à falta de luz de alguns drinkes numa noite de carência. No ficar, está implícito que, é bem provável (muito provável, na maior parte das vezes) que haja arrependimento e decepção. As vezes ambos, sendo estes facilmente aplicavéis não só as outras pessoas como também a você mesmo.
Certas pessoas não cabem nessa coisa ordinária que convencionamos ao ato de "ficar".Certas pessoas, você olha (olhar aqui estendendo-se infinitamente além do olhar propriamente dito, que supõe somente beleza externa, seja lá o que seja essa beleza física) e pensa: é para casar. Sem menos.
Não há meios de oferecer a estas pessoas menos do que isto e casamento tem hora, tem lugar e tem pessoas certas. Que podem ou não ser você.
Então... apesar de especulações alheias, pressões e perguntas de todos os lados e um certo desconforto momentâneo a algumas visões que pedem um envolvimento de fato, físico; caminha-se um fim de semana após o outro. É preciso tempo para ir de um extremo a outro. É preciso tempo para aceitar que aquele reflexo de estrela- ilha não é você, mas alguém em separado e que, talvezquemsabe,juntando-se os dois reflexos numa água menos pesada, eles formasse uma imagem.

Sábado, Fevereiro 14, 2009

2009

Há um ano atrás, eu tinha tudo. Ou achava que tinha. Tinha acabado de passar para o quinto período, a possibilidade de um estágio lecionando alemão, e o mais importante, tinha recém conhecido uma pessoa que, só à sua visão, o meu coração se acelerava de uma forma insana e eu sentia que iria morrer de ataque cardíaco aos 22 anos porque estava apaixonada.
Mas esse ano, se não fosse por haver conhecido a Daniela, eu facilmente o colocaria num baú junto com "os piores anos da minha vida" e olha que ainda estamos em fevereiro. Mas foi ao conhecer Daniela, que 2009 assumiu um outro significado. Maturidade, crescimento, compromisso. Vai ser o começo da minha vida adulta, o ano em que me formo, o ano em que irei fazer a prova de mestrado, o ano em que sentarei para escrever a sério, o ano em que eu talvez escreva o meu próprio projeto, o ano em que fiz as pazes com o alemão, o ano em que as barbies e bichinhos de pelúcia não tem mais lugar no meu quarto, o ano da mudaça da minha lingerie, de algodão para rendas e cintas-liga. O ano de eu entrar mais em mim, de eu me dar a minha própria companhia de presente, para variar. Hoje vou me dar de presente uma noite inaugural, porque a gente sabe que o ano no Brasil nunca começa antes do carnaval. Adiantei o calendário e trouxe o início do ano para cá. Hoje eu vou brindar à mim.
Obrigada, amor por tornar claras as espectativas de 2009.

Espelho

Toda vez que eu abro aquela página está aquele lembrete. Ela, uma pessoa em potencial, que, por conta de inúmeros amigos em comum, eu devo conhecer. E conheço. "Conheço" assim como "conheço" ele. Mas os que "conheci" juntos. E que via um e via outro e não sabia bem qual era a diferença de um para o outro. Você conhece casal e pensa casal, sem individualidades.
Então o casal se separa, mas como você não realmente os conhece, você não tem que lidar com as individualidades, até que uma chega a você.
E a outra permanece ali, como lembrança, como fantasma. Lembrete de que existiu e você sabe disso. Um espelho para comparação, eterno.